O silêncio do túmulo

Publisher: 
Year: 
2011


Publisher: Companhia das Letras.



The novel Grafarþögn (Silence of the Grave), translated to Portugese by Álvaro Hattnher.



About the book:



Um esqueleto é encontrado por acaso em um canteiro de obras próximo a Reykjavík, Islândia. Pelo seu aspecto, é possível dizer que foi enterrado há cerca de sessenta anos. Mas sob que circunstâncias? Será um homem ou uma mulher? Enquanto os ossos são cuidadosamente removidos por um grupo de arqueólogos, cabe ao inspetor Erlendur e a seus assistentes remexer nas velhas histórias da região, histórias repletas de lacunas, que envolvem violência doméstica, um suicídio duvidoso e a presença de uma base aliada na época da Segunda Guerra.



Paralelamente á investigação, Erlendur precisa lidar com um problema de ordem pessoal: sua filha, viciada em drogas e com quem ele mantém uma relação distante, acaba de entrar em coma.



Nas oscilações entre o tempo presente e o passado, o autor de O silêncio di túmolo constrói uma trama engenhosa e profundamente humana, na qual as gélidas paisagens islandesas cultam antigas paixões e terríveis traumas.



From the book:



Eles tinham poucos amigos, e nenhum em comum, e depois que começaram a viver juntos ela logo se viu isolada. Nas raras ocasiões em que encontrava suas antigas amigas do trabalho, ela nunca falava sobre a violência que tinha que suportar do marido, e com o tempo perdeu o contato com elas. Ela sentia vergonha. Vergonha de ser espancada e surrada quando menos esperava. Vergonha de seus olhos roxos, lábios cortados e lesões por todo o corpo. Vergonha da vida que tinha, que para os outros certamente era incompreensível, abominável. Ela queria esconder aquilo. Queria se esconder na prisão que ele criara para ela. Queria se trancar lá dentro, jogar fora a chave e torcer para que ninguém a encontrasse. Tinha que aceitar os maus-tratos dele. De alguma forma, aquilo era seu destino, absoluto e imutável.



As crianças eram tudo para ela. De fato, elas se tornaram os amigos e confidentes por quem ela vivia, especialmente Mikkelína, mas também Símon quando ficou mais velho e o menino menor, que recebera o nome de Tómas. Ela mesma escolhera o nome dos filhos. O único momento em que ele prestava atenção nas crianças era quando reclamava delas. Dizia que comiam demais. Que faziam barulho á noite. As crianças sofriam com a violência que ele impunha a ela e lhe davam conforto nos momentos de grande carência.



Ele arrancou dela o pouco respeito próprio que lhe restava. Reservada e despretensiosa por natureza, ela estava sempre querendo agradar a todos, gentil, prestativa, até mesmo submissa. Sorria desajeitada quando alguém lhe dirigia a palavra e tinha que se esforçar para não parecer tímida. Essa debilidade encheuo de uma energia que o levou a abusar dela até não restar mais nada do que ela era. Toda a sua existência girava em torno dele. Dos caprichos dele. Ela existia apenas para servi-lo. Parou de cuidar de si mesma como fazia antes. Parou de cuidar de si mesma como fazia antes. Parou de se lavar com regularidade. Parou de pensar em sua aparência. Olheiras apareceram, o rosto tornou-se flácido, um tom cinzento cobriu-lhe a pele, ela passou a andar curvada, a cabeça baixa sobre o peito como se não ousasse olhar para a frente. O cabelo, outrora espesso e bonito, tornara-se sem vida e grudento, imundo. Ela o cortava com a tesoura de cozinha quando achava que estava comprido demais.



Ou quando ele achava que estava comprido demais.



Uma coisa velha e horrorosa.



(62-63)